Francisca Blazquez : Magia e Transcendência

Comecemos por uma evidência. A maneira de um brasileiro se relacionar com a pintura é diferente do modo europeu contemplar uma obra de arte. A geometria no inicio do século 20 foi um problema que se colocou para a arte ocidental. Mas Platão percebeu nas formas geométricas o único caminho de fugir à mentira das aparências No entanto a representação na arte não passa de uma mentira elaborada com cores e formas. É o artista inventor de mentiras? Francisca Blázquez escolheu a abstração geométrica como código expressivo e construiu uma linguagem plástica universal inteligível. Mas em suas obras as dimensões são caminhos para alcançar a aura.

E um dos enigmas na pintura de Francisca é a coerência do pensamento sobre o tempo e o espaço. Percebe-se que é do movimento e do tempo que nascem signos e formas poéticas. As figuras geométricas flutuam sobre um fundo negro diferenciando-as dos construtivistas. O losango, os cubos em azul e amarelo movem sobre o circulo vermelho gerando dimensões diferentes. Assim fica claro que o mundo do pensamento mágico-místico não é objeto estético, e nem aperfeiçoa as emoções; porque a obra de arte é veículo de energias próprias que dá vida a paixão.

 



        

Partindo do principio de que há um comportamento cíclico nas linguagens artísticas é importante entender que pintura não narra nada. Não se refere a nada. E, o fenômeno não é mais importante do que o significado vivo na pintura. Francisca recorreu a recordações da infância como as imagens das pipas coloridas se movimentando no céu azul estimulando a fantasia e invocando o espírito. Essas obras foram realizadas dentro de mundo imaginário de aparências; e estão cheias de virtudes mágicas. A arte nasce no tempo, em lugares e culturas diferentes, mas é sempre inesgotável. O resultado é uma geometria dimensional, de enorme sensualidade que o espectador reconstrói a forma. A pintura de Francisca Blázquez é idéia e conceito. 

 

O essencial na linguagem plástica de Francisca Blázquez está na reflexão sobre a dimensionalidade do real em particular no âmbito da sua aplicação sem caráter científico. Para nós simples mortais é complicado compreender o mundo a partir das dimensões. No quadro “Beijo” está claro que a artista busca na forma e na deformação das figuras geométricas para expressar plasticamente o mundo encantado e místico. Acertadamente o historiador e crítico de arte Joan Lluis Montané afirmou que na pintura de Blázquez “não existe verdades senão conjunto de verdades. A cor como adjetivo, como modo de ver a beleza mais contrastada. A forma como veículo arquitetônico que transporta os sentimentos e nos dá a conhecer seu legado”.(Francisca Blázquez, Color, forma, espacio, futurismo e actitud actual.). No “Beijo” a questão do espaço recupera os sentidos. Ou seja, as figuras demarcam o espaço humano como elemento principal ao destruir o conceito de fronteiras, ou seja, o espaço geográfico. Mas no cotidiano não experimentamos abstrações cognitivas dos objetos separados, mas as relações existentes no espaço que ocupamos e no tempo em que vivemos. Nas formas estabelecemos a relação entre estruturas sociais e estruturas espaciais. Entretanto Francisca não deixa dúvidas de que o espaço é construído pelo homem.

 

Francisca Blázquez não demarca um território geográfico porque vê e sente o universo dimensional.E as figuras geométricas brotam da imaginação cujo destino é estimular a imaginação do espectador, e na imaginação religiosa e mística.

Francisca não reproduz a realidade porque como diz o ditado popular em Minas Gerais, ela vive no mundo das nuvens – então ela cria a realidade do pensamento mágico. Desmaterializa as figuras geométricas destacando seus perfis com movimentos. Posso dizer que objeto flutua sobre um fundo negro e as cores das figuras geométricas não correspondem à realidade porque são invenções de uma fantasia mística pictórica. Os objetos representados destacam plasticamente sobre o fundo. Existe a terceira dimensão e profundidade espacial. A composição é simples e clássica. As disposições das figuras são simétricas. 

A pintura de Francisca concilia a sensualidade e a forma. O cúbico geométrico é o fundamento do estilo de Francisca. A artista não se expressa em forma de signos – ela substitui o signo pelo vazio. O que mais me impressiona na pintura de Francisca Blázquez é que a linguagem não é linear e não um final – por que para ela cada final é o principio de algo novo. Portanto Francisca Blázquez é a realidade do pensamento mágico. 

 

 


Magno Dos Reis
        

 


v Reis Magno (1957)
Nascido em Lagoa da Prata (MG) Crítico de arte e jornalista. Iniciou sua carreira como professor de História. 

É professor de História da Cultura e da Arte; História da América e Metodologia da Pesquisa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Alto São Francisco – FASF – cidade de Luz – interior de Minas Gerais. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

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